QUEIMANDO O FILME.
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Espera-se que até o fim do ano o Ministério do Turismo (MTur) juntamente com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) divulguem a pesquisa “Perfil da Demanda Turística Internacional 2011”, tendo por base o ano de 2010.
O material, publicado anualmente no site do órgão do turismo federal, é o resultado das entrevistas realizadas junto aos turistas, quando do seu retorno aos países de origem, dos 15 principais mercados estrangeiros emissores, e é realizada em portos e aeroportos de 21 cidades brasileiras, sendo 5 no Nordeste, dentre elas Recife.
No trabalho, encontram-se dados que detalham quem é o turista e como andou a viagem em vários dos seus aspectos, como por exemplo: o perfil socioeconômico, de onde eles vêm, o quanto eles gastaram, onde ficaram hospedados, como e onde se informaram sobre a cidade que escolheram, e o mais importante, como eles percebem o País, ou melhor, a estrutura turística da cidade ou as cidades em que estiveram. Todos estes dados são uma rica fonte de informação que servem para o planejamento, o investimento, a adoção de medidas preventivas e ações na atividade turística.
A pesquisa vem sendo, já há algum tempo, o retrato em preto e branco de alguns dos nossos problemas – infelizmente. Mas também, apontam onde nós nos saímos melhor. A parte boa da estória fica por conta dos serviços turísticos ligados à iniciativa privada (hospedagem, restaurantes, serviço de taxi, guias turísticos). Então, não é necessário fazer muito esforço mental para adivinhar onde estão os maiores gargalos e o principal alvo das queixas dos turistas – e acreditem, as lamúrias são as mesmas que nós, os locais, fazemos. Sim, é na área de serviços públicos. Pois o turismo, sendo uma atividade totalmente transversal, reflete às condições da nossa vida cotidiana. Mas nós, cidadãos comuns, de tanto reclamar, e nada ou pouco ser feito, ficamos como que anestesiados e roucos. Além de não nos apercebemos do vexame diário que estamos passando.
Para se ter uma idéia, se nós tomássemos os números da Pesquisa (2004 a 2009), na parte em que trata da “Avaliação da Viagem”, mais especificamente nos itens referentes à infraestrutura pública: limpeza, segurança, conservação de rodovias, e fizéssemos uma comparação com o desempenho escolar de um aluno (tendo como média aceitável a nota 7,0), sua reprovação seria certa. Pois, as notas são de arrepiar qualquer um. E em se tratando de aspectos mais específicos como a sinalização turística, por exemplo, ele ficaria para prova final.
O pior de tudo é descobrir que desde 2004 estes números repetem-se e as autoridades responsáveis pelo turismo são reprovadas (na opinião dos turistas) ano a ano como se fossem estudantes relapsos. Nossos governantes, a despeito da opinião daquele que mais importa – o cliente –, continuam a brincar no playground do descaso, esquecendo-se de fazer sua tarefa de casa e escondendo o boletim com as notas em vermelho debaixo do travesseiro, tal qual o faz a criança dissimulada. Fazendo folclore e mostrando à população apenas o que lhes interessam, esquecendo-se que para passar de ano é preciso que todas as notas estejam em azul.
Enquanto isso, outros destinos no mundo, ávidos pelas crescentes receitas geradas através da atividade turística, surgem e renovam-se a todo instante. Eles lêem as pesquisas, arregaçam as mangas, investem pesado e cuidam-se para conservar a imagem junto àqueles que o visitam. Assim, oferecem uma alternativa de qualidade em oposição à má experiência que os turistas insatisfeitos viram e viveram em terras tupiniquins.
Trazendo estes fatos desagradáveis para a nossa realidade e tomando como exemplo a impressão que o turista leva do destino Recife – enquanto porta de entrada e saída de destinos em Pernambuco e outros estados –, segundo a mesma pesquisa do MTur, nos três quesitos da infraestrutura pública citados anteriormente a média de reprovação e descontentamento por parte deles, nos últimos 6 anos, é de impressionante 51,5% dos entrevistados. Parece muito. E, realmente, é.
Ao fazermos o cruzamento das informações apresentadas na Pesquisa com as contidas no Anuário Estatístico da EMBRATUR 2010 (números compilados da INFRAERO e da Polícia Federal), no tocante aos desembarques diretos de estrangeiros no Recife, os quais totalizaram 88.118 visitantes, e supondo-se ainda que os turistas retornem a seus países de origem por aonde chegaram, presume-se que, proporcionalmente à amostra, “QUEIMAMOS NOSSO FILME” com uma média de mais de 45.300 pessoas anualmente – é muita gente, uma bola de neve ladeira a baixo.
No entendimento de Theodore Levitt um dos “papas do marketing”, a ciência é “a arte de conquistar e manter clientes”. Estudos na matéria comprovam que, a opinião de uma pessoa insatisfeita consegue impressionar outras sete que ainda não experimentaram ou que ainda não têm uma opinião formada sobre um produto ou serviço (Philip Kotler).
Então, se fizermos uma rápida conta de multiplicar com as informações disponíveis, chegamos a no mínimo entristecer. Talvez, isso explique o porquê dos números de entrada de turistas estrangeiros no Brasil já virem patinando tanto e há tanto tempo.
Pelo andar da carruagem, o relatório que está para ser publicado pelo MTur não ficará muito distante do que temos hoje. É inevitável e vamos cansar de ouvir e lembrar que estamos às vésperas de dois grandiosos eventos. Um dos quais participaremos diretamente, a Copa do Mundo de Futebol, no qual se espera um “boom” na entrada de visitantes.
Portanto agora, mais do que nunca, superar aqueles problemas é mais do que fazer bem o dever de casa. É passar de ano e seguir em frente conquistando e cativando mais as pessoas. Assim, é necessário corrigir os defeitos apontados pelos clientes e estruturar melhor os destinos de forma incisiva, sem arrodeios nem projetos paliativos, para que assim possamos corresponder às expectativas deles, cada vez mais. Portanto, reitero que, se não focarmos a atenção ali e não adotarmos políticas transversais para reduzirmos aquelas insatisfações até 2014 – mais do que nunca, após a realização dos eventos – nós corremos o risco de “virarmos cinzas” na opinião das pessoas mundo a fora.
Vale à pena ficar alerta e aguardar à divulgação da Pesquisa.
Pedro Aníbal de Brito – Turismólogo e estudante do MBA em Marketing.
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