A Pipoca Nossa de Cada Dia e o Turismo
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Você pode estar se perguntando: – Qual a relação entre a pipoca e o turismo? Eu respondo e explico: Para começar, não tem nada a ver com micaretas, mas sim com o bem estar da cidade. É que, depois de caminhar pelas principais ruas e avenidas do Recife, utilizar os coletivos da Cidade e observar outros municípios da RMR, eu cheguei à conclusão que os dois estão intrinsecamente ligados. Pois, a forma equivocada de consumir a pipoca, de muitos modos, afeta a vida dos residentes do Recife e das Cidades da Região Metropolitana, bem como, influencia a opinião, ao nosso respeito, por parte daqueles que nos visitam.
Todos os dias, pelo menos por duas vezes, ao final de cada expediente – no início da tarde e no começo da noite – mais de um milhão e meio de pessoas da Região Metropolitana do Recife enfrentam uma longa viagem de retorno a seus lares. Muitos desses Recifenses, aqui gentilmente generalizados como todos aqueles que moram nas cidades da RMR, enganam a fome com um prático, nutritivo e aparentemente “inocente” lanche: o velho saquinho de pipocas.
A oferta da iguaria é enorme e sortida. As indústrias locais não revelam a quantidade produzida, mas encontra-se o produto por toda parte: em bancas, bombonieres e barracas, ou na mão dos ambulantes – estes últimos, os mais atuantes, fora e dentro dos coletivos – atitude que contraria a determinação do Grande Recife Consórcio de Transporte (que proíbe a venda de produtos e de pedintes nos ônibus) – tornam a vida do cliente/passageiro bem mais saborosa. Seja ela doce ou salgada, apreciada por crianças e adultos, a velha companheira é, sem duvida, um alívio à fome. Uma “entrada” para aqueles que vão almoçar ou jantar em casa. E como diz o slogan dos próprios vendedores, ela é: “o passa-tempo da viagem”. Até aqui, pode parecer nada de mais. Mas, além de questões relacionadas à higiene e a saúde pública, o problema começa quando termina a comilança e logo em seguida vem o errado descarte da embalagem.
As cenas não poderiam ser mais tristes: jogadas ao chão dos coletivos ou das ruas, e ainda da pior maneira possível, atiradas pelas janelas, as embalagens enfeiam e emporcalham a cidade. E mais do que isso, aquelas que não são recolhidas pelos garis, caem na rede de águas pluviais (da chuva) e, quando não entopem as galerias, seguem direto para os nossos cartões postais – os Rios Capibaribe e Beberibe. Por muitas vezes, as vilãs dão uma paradinha nos galhos e raízes dos manguezais e deles direto para o mar e para as praias, o ganha-pão do turismo das cidades litorâneas de Pernambuco, degradando por completo a vida aquática desses ambientes.
Não é mais novidade a matança gradativa que está ocorrendo – em rios e oceanos – com aves, peixes, mamíferos e anfíbios, envenenados por confundirem a reluzente embalagem com algum alimento. Até ilha de lixo no meio do Oceano Pacífico, já surgiu. Isso tudo parece uma cena dramaticamente catastrófica extraída de um roteiro de algum documentário do Greenpeace. E ela o é.
Repetidas atitudes de alguns de nossos mal educados e desinformados cidadãos repercutem de maneira negativa no meio ambiente e a reboque também no turismo.
O problema é antigo. E apesar das campanhas realizadas isoladamente pela PCR alertando à população quanto à limpeza e conservação de ruas e avenidas, pouco mudou.
Assim, às vésperas da realização de um evento como a Copa do Mundo de 2014, o qual atrairá a atenção do mundo sobre nosso Estado, cabe-nos nos preocuparmos não apenas em construir obras físicas como preparação para o evento. Mas, reforçar cada vez mais a idéia do destino adequado aos descartes inadequados de todos os produtos que consumimos e que utilizam embalagens plásticas.
Então, será crucial motivar na população atitudes corretas – de forma consciente e coletiva – e que façam a diferença. Pois, será com ações simples, realizadas por cada cidadão, como o saber dar a destinação correta a um pequeno saco de pipoca vazio, que estará à verdadeira revolução em nosso jeito de conviver com vida urbana e coma natureza e que poderá ser notada por todos, antes, durante e depois da grande festa.
Ser anfitrião é o verdadeiro papel da população no turismo. Pois, as pessoas deslocam-se de outros lugares para ver o diferente e não se espantarem com a sujeira e a imundice. E é no comportamento dos habitantes de nossas cidades, através da consciência cidadã, que irá residir o real espírito da boa educação e do receber bem – um dos pilares da estruturação turística e base de utilização do marketing para a promoção da cidade. É, também, na cultura e no modo de agir local onde está o diferencial entre os povos.
Como sugestão, talvez a criação de um consórcio, também, para a limpeza pública e programas mais eficazes de conscientização das populações envolvidas, poderá ser um dos caminhos. Precisamos modificar a abordagem do assunto utilizando estratégias de marketing diferentes das realizadas até agora para que possamos atingir o objetivo e modificar os atuais maus hábitos. Se não agirmos rapidamente, todas as obras que estão sendo feitas: cidade planejada, estádio moderno, duplicação e recuperação de estradas, melhoria do sistema integrado e corredores de ônibus; e outras obras, de nada servirão como legado.
Obras são importantes, incontestavelmente. Em nosso caso, elas resgatam anos de estagnação. Entretanto, tornam-se vazias se não temos educação para usufruí-las. Falta pouco mais de 980 dias para esclarecermos e conscientizarmos mais de 3 milhões de pessoas (só na RMR).
Uma reportagem na TV mostrou que, a África do Sul, às vésperas do evento, em 2010, convocou sua população e fez um grande mutirão de limpeza nas ruas e em terrenos baldios. Ou seja, deixou para a última hora o que poderia ter sido feito mais cedo. Mas, será que eles educaram seus cidadãos para suas vidas, ou apenas fizeram aumentar momentaneamente o número de garis? Os maus exemplos estão aí para não serem copiados.
PEDRO ANIBAL DE BRITO – Turismólogo, professor, e estudante do MBA em Marketing.



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