Uma nova orla para o Recife – Blog do Turismo PE

Uma nova orla para o Recife

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O tripé básico para a implantação de projetos de desenvolvimento econômico com foco voltado para a atividade turística é: Vontade política, investimentos privados e participação da comunidade. Recife padece pelo descompasso dos três.

Prova irrefutável dessa condição aparece quando lemos matérias como a que foi publicada, no último dia 06 de março, pelo Portal NE10, que estampou em sua página principal: Dono de quiosque é notificado após festa no calçadão de Boa Viagem. (http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2013/03/05/dono-de-quiosque-e-notificado-apos-festa-no-calcadao-de-boa-viagem-75477.php).

A matéria relata o incomodo que uma festa realizada nas areias da Praia causou aos seletos e nobres moradores daquele pedaço da cidade, com muito barulho, violência e lixo. Uma questão que chegou a envolver, segundo a matéria, o próprio Secretário de Defesa Social, dada à relevância e poder de influência daquela comunidade sobre as autoridades públicas – que se comprazem e se sensibilizam com toda reclamação que provenha deles. Pois, não pode haver lá, naquele pedaço particular de paraíso, qualquer movimento que perturbe o tranquilo e relaxante som das ondas que arrebentam nos arrecifes ou quebram nas areias da praia.

É condição básica, quando tratamos de planejamento para o turismo, que os três elementos estejam intrinsecamente ligados. Há que se pensar no impacto social causado na comunidade receptora do turismo: o engajamento dela é condição fundamental para o desenvolvimento de qualquer ação. Entretanto, cabe ao poder público, organizar a infraestrutura necessária e, dentre outras medidas, fazer o convencimento de que a utilização do espaço, de forma sustentável, é uma opção que irá beneficiar toda uma população e não apenas um número reduzido de pessoas. Afinal de contas, vivemos em uma democracia, onde o bem da coletividade está acima do interesse individual ou de uma minoria. Na terceira ponta, o surgimento de investimentos privados e dos empreendimentos é uma consequência lógica da demanda pelo serviço a ser prestado ou dos produtos a serem ofertados ao sucesso da atividade turística.

É farto o material de marketing turístico produzido nas três escalas do poder executivo: Municipal, Estadual e Federal, que em conjunto, ou cada um deles em sua arena, tentam a todo custo promover os 8 km de praia da Zona Sul recifense como um lugar destinado ao turismo de lazer e onde existe um espaço “altamente democrático”. Investem os pernambucanos em um discurso de convencimento tentando desfazer “o torcer de narizes” dos profissionais do turismo para a proposta de venda da Praia – que goza de má fama causada pelas terríveis notícias do mar dali ser infestado pelos tubarões. E o esforço se dá na tentativa de inculcar qualidades, como a que lá estão quilômetros de praias onde se pode fazer de tudo: caminhar, praticar esportes, esticar-se ao sol, experimentar um pouco da gastronomia local, tomar uma refrescante água de coco, e até se banhar com relativa segurança na faixa protegida pelos arrecifes, no que os eufemistas defendem ser “A mais bela praia urbana do País”. Parte do esforço é em vão, porque o espaço democrático é aturado pela nobreza canavieira apenas a luz do dia. Basta atentar para o último parágrafo da matéria onde podemos ler que agora se busca identificar os responsáveis pelo luau que aconteceu, e que “… o 19º Batalhão da PM lançará uma operação especial contra a perturbação do sossego na orla”.

Está na hora de ser revisto o conceito de coletividade e de espaço público na Avenida Boa Viagem para a livre manifestação popular, seja protestando ou divertindo-se. Um espaço como a orla do Pina-Boa Viagem-Setubal não pode servir apenas ao interesse de uma minoria que busca sua diversão no além Pernambuco, e que quando retornam de suas viagens querem a paz e tranquilidade da sua província canavieira. Há de se lutar pela completa democratização do espaço, pois a última investida bem sucedida dos endinheirados foi acabar com a festa de Réveillon que acontecia há anos em frente ao Edf. Acaiaca, transferindo-a com a aquiescência da administração anterior para as areias em frente à Brasília Teimosa.

Temos que lembrar que a utilização daquele espaço litorâneo costumava movimentar um grande fluxo turístico para o Recife e outras cidades da RMR – beneficiando os municípios com um aumento na geração de empregos que direta ou indiretamente estavam ligados à atividade turística. E o consequente incremento na arrecadação de impostos municipais com aquela movimentação.

Agora, assistimos à repressão de qualquer ato popular em que se busque diversão, que movimente a orla a noite, e/ou que venha perturbar a paz e o descanso do metro quadrado que mais se valorizou no Brasil. Infelizmente não há espaço físico para duplicar a praia: uma para a plebe outra para os nobres.

Será que em Copacabana-Ipanema-Leblon acontece entre os ricaços o mesmo pensamento provinciano? Não é o que parece. Fica a reflexão.

PEDRO ANIBAL DE BRITO – Turismólogo e MBA em Marketing

 

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