Frevo. Modernizando o Passado. – Blog do Turismo PE

Frevo. Modernizando o Passado.

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O carnaval está chegando e temos participado de alguns debates sobre o frevo através das redes sociais. Alguns criticam a mesmice do frevo e outros a modernidade. Discussões acaloradas, típicas de gente que tem opinião e cada um quer fazer valer suas posições. Não podemos ficar calados, porque livre pensar não é só pensar. Também, queremos falar de carnaval e de frevo, porém, antes de discutir música pernambucana, lembremos o que aconteceu no carnaval baiano.

Nos anos 1970 e início dos 1980, o frevo de Armandinho, Dodô e Osmar, Moraes Moreira, os “Muitos Carnavais” e o “Frevo Novo” de Caetano e Gil faziam o povão sair atrás do trio elétrico, lotando a Praça Castro Alves, porque ela é “do povo”. Foi quando surgiu um desconhecido Luiz Caldas com a sua “Nega do Cabelo Duro”, transformando o carnaval baiano lançando o que se tornaria o “axé music”. No meu sentir, esse processo não se tratava de evolução, mas, sim, de modernização, na leitura do filósofo Immanuel Wallerstein, modernização é copiar padrões ditados pelas nações dominantes do Sistema Mundo. A música baiana perdeu qualidade em favor do lucro milionário e do turismo de massa. O “axé music” se consolidou e, praticamente, excluiu do carnaval centenas de belíssimas manifestações afrodescendentes, que eram tão ricas na terra de todos os Santos. Hoje, a música baiana, para quem está “à distância”, resume-se ao “axé music“, que não é afro como pretende a palavra axé, nem americano como pretende a palavra music. É bem feita e agrada uma legião gigantesca de consumidores. É a música da indústria cultural, onde produtor exige do artista refrão tipo “chiclete” que gruda na mente e ajuda a vender.

Aqui do lado de baixo do equador, em Pernambuco, o trabalho dos maestros Spok e Forró, artistas como Silvério Pessoa, Lula Queiroga, Charles Theony (que vi recentemente em apresentação e gostei muito), e tantos outros, traz a evolução Wallersteiniana para o centenário Frevo, Patrimônio Imaterial da Humanidade. O requinte de tocar de smoking nas mais importantes casas de jazz, em grandes festivais internacionais e, até mesmo, na sede do Governo Francês valoriza o Frevo, assim como, o jeito maneiro de Forró e sua turma da Bomba do Hemetério que fazem frevo e festa como poucos. Repetem hoje o que a Nação Zumbi fez com o maracatu, e levou no seu vácuo o maracatu de raiz, estimulando milhares de jovens, de todo o mundo, a se interessar pelo ritmo e subir os morros do Recife para aprender com os Mestres do Alto José do Pinho e Morro da Conceição.

A renovação do frevo é sofisticada e não consegue concorrer com o que é de interesse da grande mídia e da indústria cultural que busca, cada vez mais, chegar à nova classe média. Entretanto, o problema do frevo, definitivamente, não é a falta de renovação. Se o frevo modernizasse, como pretendem muitos, em busca de refrão campeão de vendas… Será que teríamos transformado o nosso ritmo em Patrimônio Cultural da Humanidade? Não teríamos. Afirmamos sem medo que preservar a tradição da música, da dança e do frege é que tornaram o nosso ritmo reconhecido pela UNESCO.

Imaginem se os franceses, a cada 10 anos, fizessem uma modernização na Catedral de Notredame buscando atrair turistas. Hoje, teríamos neon indicando os caminhos do corcunda, gárgulas robô falantes contando a história de Madeleine e vitrais em LED exibindo fotos tiradas pelos celulares dos visitantes e transmitidas por Bluetooth. A igreja estaria lotada de estrangeiros, mas o mundo perderia um inestimável patrimônio.

Por fim, esperamos que muitos jovens agora se interessem, toquem, ouçam e dancem muito frevo, em qualquer parte do mundo, atraídos por nossa “evolução musical”, como diria Chico Science. Evolução que começa com Nelson, Capiba, Maria, Duda, Cloves, Ademir, Nunes, Carlos, Cláudio, Alírio, Alceu, Michiles, Geraldo, etc. E que venha Caetano, cante frevo, novo – ou não – para lotar a nossa Praça, que é do povo, de gente que adora ouvir um bom Som ao Redor.

Flávio Domingues
Engenheiro Civil

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