A África Que Temos – Blog do Turismo PE

A África Que Temos

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Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

(Trecho do poema Navio Negreiro – Castro Alves)

Nunca é suficiente recordar de onde vem a origem étnica do povo brasileiro. Viemos de uma mistura secular: Do nativo desta terra; do colonizador “branco” europeu – Gilberto Freire explica melhor estas aspas; e do valente Africano. Aprendemos esta lição na escola desde criança.

Muitos de nós tomamos para si uma das raças que mais se afeiçoa, ou, forçosamente, rendemo-nos a ela a cada embate diário com o espelho. Outros encaram verdadeiramente a miscigenação quingentésima desta Nação, não se importando de qual das três ele mais se encaixa. O certo é que as heranças de todas estas raças se fazem presente em nossas vidas e estão visceralmente expressas e imbricadas, seja na língua, na música, na dança, na gastronomia, nas superstições, nas roupas, na religião, enfim, elas são o espelho de nós mesmos. Assim, de que vale os valores de um povo se não encontra em sua cultura o cimento edificador de sua identidade e oferece ao visitante aquilo que ele, o turista, não trás consigo.

Já há alguns anos, muitos pernambucanos, tais quais nossos irmãos baianos, descobriram que encarar suas origens negras, ou melhor, ser afro-descendente brasileiro, além de motivo de grande orgulho, é princípio de reafirmação de nossas origens, sem negar a mistura da brasilidade, e, ao mesmo tempo, tornar-se agente do engrandecimento da raça e de sua herança, além de influenciar a formação dos futuros brasileiros, em qualquer que seja o rincão que se encontrem, conscientizando-os de que apesar de seus antepassados terem sido trazidos para cá em condições subumanas e submetidos a toda sorte de seus algozes, sobreviveram e influenciaram a formação de uma Nação inteira.

Este mês de novembro celebra-se o Mês da Consciência Negra, e neste ano em especial, o Ano Internacional dos Afro-descendentes, e como não poderia deixar de ser, tudo começa pela fé. Hoje, dia 4 de novembro, sexta-feira, a partir das 15hs, na Praça do Marco Zero, partirá um dos mais belos e autênticos cortejos da Religiosidade de nosso povo, a 5ª Caminhada dos Terreiros de Pernambuco.

Foi está fé nos Orixás que manteve vivo nos corações e mentes daqueles que persistiram bravamente às intempéries do tempo e do açoite as tradições e a cultura que tanto valorizamos. A fé é matriz de tudo aquilo que faz parte do que orgulhosamente chamamos de “nossas coisas”. Pois, foram através dos Terreiros de Xangô e de seus Sacerdotes, sacerdotisas, discípulos e cultuadores que se mantiveram firmes e pulsantes – apesar de toda perseguição e discriminação que sofreram e ainda sofrem – as palavras e os costumes dos quais até hoje nos deixam reconhecer o significado de: agogô, banzo, cafuné, Maracatu, frevo (dança), samba, mandinga e até a tanga. Apenas um exemplo de tantas outras palavras que presentearam à Língua Portuguesa, e lhe deu o molejo que é tão nosso o qual tanto nos orgulhamos. Este é um evento que além de abrir um calendário festivo, celebra também à resistência religiosa daqueles nossos antepassados que tanto contribuíram para o que somos hoje: Brasileiros.

O turismo de Pernambuco bravamente dá seus primeiros passos em direção à valorização desse crescente movimento cultural. Encontra-se em visita hoje em nosso estado profissionais norte americanos especializados no turismo étnico: os TPOC’s – uma associação de operadores e agentes de turismo dos EUA – que estão interessados em conhecer um pouco mais do que já sabem e ir além do “samba carioca” e do “ritmo do Pelô”. Eles, a convite do Governo do Estado, Secretaria de Turismo e EMPETUR, estão descobrindo e reconhecendo as nossas riquezas africanas e saber que o Brasil e feito de muitos outros tons que hereditariamente também os pertence.

PEDRO ANÍBAL DE BRITO – Professor, MBA em Marketing e Turismólogo.

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